Um reconhecimento sem lei: a subsidiariedade dos direitos LGBTQIAPN+ no Brasil
A recognition without law: the subsidiarity of LGBTQIAPN+ rights in Brazil
Un reconocimiento sin ley: la subsidiariedad de los derechos LGBTQIAPN+ en Brasil
No Brasil, o casamento entre pessoas do mesmo sexo não é garantido por lei do Congresso, mas por uma resolução administrativa. Esse detalhe, aparentemente técnico, revela uma fragilidade estrutural na proteção dos direitos das dissidências de gênero e sexualidade.
O reconhecimento jurídico das populações LGBTQIAPN+ avançou muito nas últimas décadas — mas por um caminho peculiar. Em vez de legislação aprovada pelo Parlamento, esses direitos têm sido construídos sobretudo por decisões do Supremo Tribunal Federal e por atos do Conselho Nacional de Justiça (CNJ). Chamo esse fenômeno de subsidiariedade dos direitos LGBTQIAPN+: uma posição estrutural em que tais demandas são atendidas de modo acessório e provisório, sem a estabilidade que só a lei formal confere.
O caso paradigmático é a Resolução nº 175/2013 do CNJ, que proibiu os cartórios de recusar o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo. Trata-se, ao mesmo tempo, de um êxito e de uma fragilidade. Êxito porque foi uma aplicação concreta e bem fundamentada do controle de convencionalidade — o mecanismo pelo qual órgãos do Estado compatibilizam as normas internas com os tratados internacionais de direitos humanos, em especial a Convenção Americana e a jurisprudência da Corte Interamericana. Fragilidade porque o instrumento escolhido foi uma resolução administrativa: revogável, hierarquicamente inferior à lei e dependente da boa vontade institucional de quem está no poder.
A assimetria é gritante. Para casais heterossexuais, o casamento é regulado pelo Código Civil, uma lei com todos os atributos de permanência e legitimidade democrática. Para casais homoafetivos, o mesmo direito repousa sobre um ato que pode ser desfeito sem processo legislativo, sem audiências públicas, sem voto parlamentar. O CNJ precisou agir exatamente porque o Congresso não agiu — e essa ausência de lei expõe o reconhecimento a resistências, litígios e eventual retrocesso.
O controle de convencionalidade foi, nesse cenário, um paliativo eficaz para uma omissão que, num sistema plenamente comprometido com a igualdade, não deveria existir. Mas há um limite: por melhor que seja aplicado, ele não pode substituir indefinidamente o processo legislativo. A proteção plena dos direitos LGBTQIAPN+ no Brasil exige uma base legislativa sólida, aprovada pelo Congresso, capaz de conferir a esses direitos a permanência e a legitimidade que apenas a lei formal pode oferecer.
Enquanto isso não acontece, seguimos com um reconhecimento sem lei — estável enquanto durarem os compromissos institucionais, mas vulnerável a cada mudança de ventos políticos.
In Brazil, same-sex marriage is not guaranteed by an act of Congress, but by an administrative resolution. This seemingly technical detail reveals a structural fragility in the protection of the rights of gender and sexual dissidences.
Legal recognition of LGBTQIAPN+ populations has advanced significantly in recent decades — but along a peculiar path. Instead of legislation passed by Parliament, these rights have been built mainly through decisions of the Federal Supreme Court and acts of the National Council of Justice (CNJ). I call this phenomenon the subsidiarity of LGBTQIAPN+ rights: a structural position in which such demands are met in an accessory and provisional way, without the stability that only formal law can confer.
The paradigmatic case is CNJ Resolution No. 175/2013, which barred civil registries from refusing same-sex civil marriage. It is at once a success and a fragility. A success because it was a concrete, well-grounded application of conventionality control — the mechanism by which State bodies align domestic norms with international human rights treaties, especially the American Convention and the case law of the Inter-American Court. A fragility because the chosen instrument was an administrative resolution: revocable, hierarchically inferior to law, and dependent on the institutional goodwill of those in power.
The asymmetry is stark. For heterosexual couples, marriage is governed by the Civil Code, a law with every attribute of permanence and democratic legitimacy. For same-sex couples, the same right rests on an act that can be undone without any legislative process, public hearings, or parliamentary vote. The CNJ had to act precisely because Congress did not — and this absence of law exposes recognition to resistance, litigation, and potential setback.
In this scenario, conventionality control was an effective palliative for an omission that, in a system fully committed to equality, should not exist. But there is a limit: however well applied, it cannot indefinitely replace the legislative process. Full protection of LGBTQIAPN+ rights in Brazil requires a solid legislative basis, passed by Congress, capable of granting these rights the permanence and legitimacy that only formal law can offer.
Until that happens, we continue with a recognition without law — stable as long as institutional commitments last, but vulnerable to every shift in the political winds.
En Brasil, el matrimonio entre personas del mismo sexo no está garantizado por una ley del Congreso, sino por una resolución administrativa. Ese detalle, aparentemente técnico, revela una fragilidad estructural en la protección de los derechos de las disidencias de género y sexualidad.
El reconocimiento jurídico de las poblaciones LGBTQIAPN+ ha avanzado mucho en las últimas décadas, pero por un camino peculiar. En lugar de legislación aprobada por el Parlamento, esos derechos se han construido sobre todo mediante decisiones del Supremo Tribunal Federal y actos del Consejo Nacional de Justicia (CNJ). Llamo a este fenómeno la subsidiariedad de los derechos LGBTQIAPN+: una posición estructural en la que tales demandas se atienden de modo accesorio y provisional, sin la estabilidad que solo la ley formal confiere.
El caso paradigmático es la Resolución n.º 175/2013 del CNJ, que prohibió a los registros civiles rechazar el matrimonio entre personas del mismo sexo. Es, a la vez, un éxito y una fragilidad. Éxito porque fue una aplicación concreta y bien fundamentada del control de convencionalidad — el mecanismo por el cual los órganos del Estado compatibilizan las normas internas con los tratados internacionales de derechos humanos, en especial la Convención Americana y la jurisprudencia de la Corte Interamericana. Fragilidad porque el instrumento elegido fue una resolución administrativa: revocable, jerárquicamente inferior a la ley y dependiente de la buena voluntad institucional de quien está en el poder.
La asimetría es flagrante. Para las parejas heterosexuales, el matrimonio se rige por el Código Civil, una ley con todos los atributos de permanencia y legitimidad democrática. Para las parejas del mismo sexo, el mismo derecho reposa sobre un acto que puede deshacerse sin proceso legislativo, sin audiencias públicas, sin voto parlamentario. El CNJ tuvo que actuar precisamente porque el Congreso no lo hizo — y esa ausencia de ley expone el reconocimiento a resistencias, litigios y eventual retroceso.
El control de convencionalidad fue, en ese escenario, un paliativo eficaz para una omisión que, en un sistema plenamente comprometido con la igualdad, no debería existir. Pero hay un límite: por mejor que se aplique, no puede sustituir indefinidamente el proceso legislativo. La protección plena de los derechos LGBTQIAPN+ en Brasil exige una base legislativa sólida, aprobada por el Congreso, capaz de conferir a esos derechos la permanencia y la legitimidad que solo la ley formal puede ofrecer.
Mientras eso no ocurre, seguimos con un reconocimiento sin ley — estable mientras duren los compromisos institucionales, pero vulnerable a cada cambio de los vientos políticos.